
EMDR funciona para traumas? O que mostram as pesquisas científicas
Revisão científica mostra que o EMDR é eficaz no tratamento do trauma, reduzindo sintomas de estresse pós-traumático e favorecendo a recuperação emocional.
Quando uma pessoa passa por uma experiência traumática, nem sempre o sofrimento termina quando o acontecimento acaba. Algumas experiências podem permanecer associadas a emoções intensas, sensações corporais, imagens, pensamentos e crenças negativas, que podem ser novamente ativadas diante de situações do presente.
É justamente nesse campo que atua o EMDR — Eye Movement Desensitization and Reprocessing (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), uma abordagem psicoterapêutica desenvolvida especialmente a partir do estudo e do tratamento de experiências traumáticas.
Mas uma pergunta importante é: o EMDR realmente funciona para o tratamento do trauma?
A resposta vem sendo investigada cientificamente há décadas.
O que dizem as pesquisas?
Em 2018, os pesquisadores Gemma Wilson, Derek Farrell, Ian Barron, Jonathan Hutchins, Dean Whybrow e Matthew D. Kiernan publicaram na revista científica Frontiers in Psychology uma revisão das evidências sobre a utilização do EMDR no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Os pesquisadores analisaram estudos considerados metodologicamente mais robustos, incluindo ensaios clínicos randomizados e meta-análises.
Os resultados encontrados forneceram evidências favoráveis à eficácia do EMDR no tratamento do TEPT.
De modo geral, os estudos analisados mostraram que o EMDR esteve associado a:
redução dos sintomas de estresse pós-traumático;
melhora dos critérios relacionados ao diagnóstico de TEPT;
redução de outros sintomas associados às experiências traumáticas;
resultados favoráveis quando comparado a outros tratamentos focados no trauma.
A revisão também encontrou resultados positivos em diferentes contextos culturais.
Por que uma experiência traumática pode continuar causando sofrimento?
Uma das bases teóricas do EMDR é o Modelo de Processamento Adaptativo da Informação (PAI).
De acordo com esse modelo, algumas experiências extremamente perturbadoras podem não ser adequadamente processadas e integradas às demais redes de memória.
Isso ajuda a compreender por que uma pessoa pode saber racionalmente que determinada situação terminou e, ainda assim, continuar apresentando medo, ansiedade, culpa, vergonha, sensação de impotência ou outras reações emocionais e corporais quando algo no presente ativa aquela experiência.
Uma memória traumática, portanto, não diz respeito apenas ao que a pessoa lembra.
Ela pode envolver imagens, emoções, pensamentos, crenças sobre si mesma e sensações corporais associadas à experiência.
O que acontece durante o EMDR?
O objetivo do EMDR não é simplesmente fazer a pessoa esquecer aquilo que aconteceu.
O trabalho terapêutico busca favorecer o reprocessamento da experiência, permitindo que aquela memória seja integrada de maneira mais adaptativa.
Durante determinadas fases do protocolo, o terapeuta utiliza estimulação bilateral — que pode envolver movimentos oculares ou outras formas de estimulação alternada — enquanto determinados componentes da memória são trabalhados.
Com o reprocessamento, a lembrança do acontecimento pode permanecer, mas a intensidade emocional associada a ela tende a diminuir e novas associações mais adaptativas podem surgir.
Em outras palavras: a pessoa não precisa apagar sua história para deixar de sofrer como se aquela história ainda estivesse acontecendo.
O que a revisão científica encontrou?
A revisão de Wilson e colaboradores concluiu que as evidências analisadas sustentavam a eficácia do EMDR como tratamento para o TEPT.
Os autores observaram redução dos sintomas de TEPT e de outros sintomas relacionados ao trauma nos estudos avaliados.
Ao mesmo tempo, os próprios pesquisadores chamam atenção para as limitações da literatura científica disponível naquele momento. Entre elas estavam o tamanho reduzido das amostras de alguns estudos e a necessidade de pesquisas com períodos maiores de acompanhamento dos pacientes.
Esse ponto é importante porque ciência de qualidade não significa afirmar que um tratamento funciona igualmente para todas as pessoas ou situações. Significa avaliar sistematicamente as evidências disponíveis, reconhecer seus resultados e também seus limites.
O trauma pode ser tratado
Experiências traumáticas podem deixar marcas profundas, mas essas marcas não precisam determinar permanentemente a maneira como uma pessoa sente, pensa ou reage ao mundo.
O EMDR oferece uma possibilidade psicoterapêutica voltada justamente ao processamento dessas experiências e das memórias que continuam produzindo sofrimento no presente.
As evidências científicas analisadas por Wilson e colaboradores reforçam o EMDR como uma abordagem relevante para o tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
A indicação do tratamento, entretanto, deve considerar a história, os sintomas, os recursos emocionais e as necessidades específicas de cada pessoa, a partir de uma avaliação clínica realizada por profissional qualificado.
Fonte científica
Este texto de divulgação científica foi elaborado com base no artigo:
Wilson, G., Farrell, D., Barron, I., Hutchins, J., Whybrow, D., & Kiernan, M. D. (2018). The Use of Eye-Movement Desensitization Reprocessing (EMDR) Therapy in Treating Post-traumatic Stress Disorder—A Systematic Narrative Review. Frontiers in Psychology, 9, 923.
DOI: 10.3389/fpsyg.2018.00923
Artigo científico original publicado em Frontiers in Psychology e disponibilizado em acesso aberto (Open Access).
https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2018.00923/full?utm_source=chatgpt.com
