
EMDR e Apego: o que as pesquisas mostram sobre a segurança emocional nos relacionamentos
Estudo investiga como o EMDR pode contribuir para reduzir a insegurança de apego, reprocessando traumas e favorecendo vínculos mais seguros.
A forma como aprendemos a nos relacionar começa muito cedo. As primeiras experiências de cuidado, proteção, disponibilidade emocional e segurança contribuem para a construção de modelos internos sobre nós mesmos e sobre as outras pessoas.
Quando essas experiências são marcadas por rejeição, abandono, negligência, imprevisibilidade ou situações traumáticas, podem permanecer padrões de insegurança que se manifestam posteriormente nos relacionamentos.
Mas será que esses padrões podem se modificar?
Uma pesquisa publicada em 2023 investigou uma questão particularmente interessante: a psicoterapia EMDR, ao trabalhar experiências traumáticas, também poderia estar associada a mudanças na segurança do apego?
O que é apego?
A teoria do apego, desenvolvida inicialmente pelo psiquiatra e psicanalista John Bowlby, propõe que nossas primeiras relações significativas contribuem para a formação de modelos internos que influenciam a maneira como percebemos a nós mesmos, os outros e os relacionamentos.
Esses modelos podem envolver questões como:
“Sou digno de ser amado?”
“Posso confiar que alguém estará disponível quando eu precisar?”
“É seguro depender emocionalmente de outra pessoa?”
“O que acontece quando alguém se afasta de mim?”
Ao longo da vida, essas representações podem influenciar a forma como estabelecemos vínculos, lidamos com proximidade e afastamento, interpretamos rejeições e respondemos emocionalmente aos relacionamentos.
Apego seguro e inseguro
No apego seguro, existe maior possibilidade de estabelecer proximidade emocional mantendo, ao mesmo tempo, autonomia e confiança nas relações.
Nos padrões inseguros, podem aparecer diferentes formas de lidar com os vínculos.
Algumas pessoas apresentam maior ansiedade diante da possibilidade de afastamento ou rejeição. Podem precisar frequentemente de confirmação de que são amadas ou temer intensamente perder pessoas importantes.
Outras aprendem a evitar a proximidade emocional, tornando-se excessivamente autossuficientes ou desconfortáveis diante da dependência e da intimidade.
Também existem padrões caracterizados simultaneamente pelo desejo de proximidade e pelo medo dela.
Essas formas de relacionamento não devem ser entendidas simplesmente como escolhas conscientes. Muitas vezes representam estratégias desenvolvidas ao longo da história da pessoa para lidar com experiências relacionais difíceis.
Onde o EMDR entra nessa história?
O EMDR — Eye Movement Desensitization and Reprocessing — trabalha a partir do princípio de que determinadas experiências perturbadoras podem permanecer armazenadas de maneira desadaptativa nas redes de memória.
Segundo o Modelo de Processamento Adaptativo da Informação (PAI), que fundamenta o EMDR, experiências não suficientemente processadas podem continuar influenciando emoções, sensações corporais, pensamentos, crenças e comportamentos no presente.
Isso pode ser especialmente relevante quando pensamos em experiências relacionais.
Uma pessoa que vivenciou repetidamente rejeição, abandono, negligência ou imprevisibilidade emocional pode desenvolver crenças como:
“Eu não sou importante.”
“Eu vou ser abandonado.”
“Não posso confiar nas pessoas.”
“Preciso agradar para não perder o outro.”
“É perigoso depender de alguém.”
Mesmo quando a realidade atual é diferente, situações presentes podem ativar antigas redes de memória e desencadear respostas emocionais intensas.
O que a pesquisa investigou?
Barazzone e colaboradores acompanharam 18 adultos que receberam EMDR para sintomas relacionados ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e ao TEPT Complexo.
Os participantes realizaram, em média, 15 sessões de EMDR.
Durante o tratamento, os pesquisadores avaliaram aspectos relacionados ao apego, aos sintomas traumáticos e à aliança terapêutica.
Um dado importante é que a maioria dos participantes apresentava inicialmente padrões de apego inseguro.
O que os pesquisadores encontraram?
Ao longo do tratamento, os pesquisadores observaram redução da insegurança de apego.
Houve diminuição significativa de características relacionadas aos padrões de apego temeroso e evitativo/desapegado em determinadas comparações realizadas durante o estudo.
Também foi observada redução da evitação relacionada ao apego ao longo do tratamento.
Paralelamente, houve melhora de sintomas relacionados ao TEPT e ao TEPT Complexo.
Esses resultados levantam uma hipótese clinicamente muito interessante: ao reprocessar experiências traumáticas, podem ocorrer mudanças que ultrapassam a redução dos sintomas do trauma e alcançam também a maneira como a pessoa percebe a si mesma e suas relações.
Reprocessar memórias pode modificar a maneira de se relacionar?
Essa é uma das questões mais interessantes levantadas pelo estudo.
O EMDR não tem como objetivo simplesmente ensinar uma pessoa a pensar de maneira diferente sobre seus relacionamentos.
O reprocessamento procura alcançar as experiências e redes de memória que continuam alimentando determinadas respostas emocionais no presente.
Quando uma memória é reprocessada de maneira adaptativa, a pessoa continua sabendo o que aconteceu, mas aquela experiência pode deixar de carregar a mesma intensidade emocional e de determinar suas respostas atuais.
Assim, crenças construídas em experiências anteriores podem gradualmente dar lugar a percepções mais adaptativas.
Por exemplo:
“Eu vou ser abandonado” pode caminhar em direção a “Eu posso lidar com o que acontecer.”
“Eu não sou importante” pode dar lugar a “Eu tenho valor.”
“Não posso confiar em ninguém” pode tornar-se uma percepção mais flexível: “Eu posso aprender a reconhecer em quem é seguro confiar.”
Não se trata de substituir uma frase negativa por uma positiva, mas de favorecer um processamento emocional mais adaptativo das experiências que contribuíram para a construção dessas crenças.
Apego não é uma sentença definitiva
Um aspecto importante da teoria contemporânea do apego é compreender que os padrões relacionais, embora possam apresentar relativa estabilidade, não são necessariamente imutáveis.
Novas experiências relacionais, psicoterapia, desenvolvimento emocional e elaboração de experiências traumáticas podem contribuir para mudanças na maneira como a pessoa estabelece vínculos.
O estudo de Barazzone e colaboradores acrescenta uma possibilidade interessante a essa discussão: o EMDR pode estar associado não apenas à redução de sintomas traumáticos, mas também a mudanças relacionadas à segurança do apego.
O que ainda precisamos saber?
É importante interpretar esses resultados com cautela.
Esse foi um estudo piloto, realizado com apenas 18 participantes e sem um grupo controle. Portanto, não é possível afirmar, a partir dessa pesquisa isoladamente, que o EMDR necessariamente transforma estilos de apego ou que as mudanças observadas foram causadas exclusivamente pelo tratamento.
Os próprios pesquisadores destacam que essa área de investigação ainda está em seus estágios iniciais e que são necessários estudos maiores e metodologicamente mais robustos.
Os resultados, entretanto, são promissores e abrem um campo importante para futuras pesquisas sobre trauma, memória, EMDR e vínculos afetivos.
Quando o passado continua presente nos relacionamentos
Algumas dificuldades afetivas do presente podem estar relacionadas a experiências que ocorreram muito antes do relacionamento atual.
O medo intenso de abandono, a dificuldade de confiar, a necessidade constante de confirmação, o afastamento emocional ou a sensação de que a proximidade representa perigo podem ter raízes em experiências anteriores que ainda carregam forte conteúdo emocional.
O EMDR oferece uma possibilidade de trabalhar essas experiências a partir das redes de memória associadas ao sofrimento.
Mais do que simplesmente compreender intelectualmente por que determinado padrão existe, o objetivo do reprocessamento é permitir que experiências anteriormente perturbadoras possam ser integradas de maneira mais adaptativa.
A pesquisa sobre EMDR e apego ainda está se desenvolvendo, mas estudos como o de Barazzone e colaboradores ajudam a compreender uma possibilidade importante: quando memórias traumáticas são reprocessadas, talvez também possa mudar a maneira como a pessoa vivencia a si mesma e seus vínculos no presente.
Fonte científica
Este texto de divulgação científica foi elaborado com base no artigo:
Barazzone, N. A., Santos, I., McGowan, J. F., Crowley, M., Chamberlain, A. R., & Donaghay-Spire, E. G. (2023). Eye Movement Desensitization and Reprocessing Therapy and Change in Attachment Security: A Pilot Study. Journal of EMDR Practice and Research, 17(1), 38–52.
DOI: 10.1891/EMDR-2022-0053
Artigo científico publicado no Journal of EMDR Practice and Research e disponibilizado em acesso aberto (Open Access).
