Rosane Rocha
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Quando o passado interfere nos vínculos: EMDR e memórias relacionais precoces
geral18 de agosto de 20267 min de leitura

Quando o passado interfere nos vínculos: EMDR e memórias relacionais precoces

Estudo investiga como o EMDR pode ajudar a reprocessar traumas e memórias precoces, favorecendo maior compreensão emocional e vínculos mais seguros.


Por que algumas pessoas compreendem racionalmente que estão em um relacionamento seguro e, ainda assim, sentem medo intenso de serem abandonadas? Por que outras desejam proximidade, mas se afastam justamente quando uma relação se torna mais íntima?

Nem sempre essas reações começam no relacionamento atual.

Experiências vividas nos primeiros vínculos afetivos podem contribuir para a construção de modelos internos sobre quem somos, quanto podemos confiar nos outros e o que podemos esperar das relações.

Quando essas experiências envolvem perdas, rejeição, negligência, medo ou situações traumáticas que permanecem emocionalmente não resolvidas, seus efeitos podem continuar aparecendo muito tempo depois.

Um estudo publicado por Civilotti e colaboradores (2019) investigou uma questão particularmente interessante: o tratamento com EMDR poderia estar associado a mudanças na forma como adultos organizam e compreendem suas experiências de apego?

Nossas primeiras relações deixam memórias

Desde muito cedo, aprendemos sobre segurança emocional por meio das relações.

Quando uma criança encontra disponibilidade, proteção e respostas suficientemente consistentes às suas necessidades, tende a desenvolver maior confiança na possibilidade de buscar apoio quando necessário.

Entretanto, quando os vínculos são marcados por experiências difíceis, a criança também precisa encontrar maneiras de se adaptar.

Essas adaptações podem ter sido importantes naquele momento, mas algumas delas podem continuar sendo utilizadas posteriormente, mesmo quando as circunstâncias já são diferentes.

Na vida adulta, isso pode aparecer como:

  • medo excessivo de rejeição ou abandono;

  • dificuldade para confiar;

  • necessidade constante de confirmação afetiva;

  • dificuldade de demonstrar vulnerabilidade;

  • afastamento quando alguém se aproxima emocionalmente;

  • sensação de não ser suficientemente importante ou digno de amor;

  • dificuldade para compreender as próprias emoções e as do outro.

Isso não significa que todas as dificuldades relacionais sejam resultado da infância. Os vínculos humanos são complexos e influenciados por inúmeros fatores.

As experiências precoces, entretanto, podem constituir uma parte importante dessa história.

Quando uma experiência permanece emocionalmente não resolvida

Uma pessoa pode saber racionalmente que determinada experiência aconteceu há muitos anos e, mesmo assim, reagir emocionalmente como se algo daquela experiência ainda estivesse presente.

No EMDR, essa compreensão é articulada pelo Modelo de Processamento Adaptativo da Informação (PAI).

O modelo propõe que determinadas experiências perturbadoras podem permanecer armazenadas de maneira insuficientemente processada nas redes de memória.

Assim, acontecimentos atuais podem funcionar como disparadores dessas redes.

Uma demora para responder uma mensagem, uma discussão, uma expressão facial ou o afastamento momentâneo de alguém importante podem adquirir um significado emocional muito maior do que a situação presente aparentemente justificaria.

O presente pode estar ativando algo que pertence também ao passado.

O que a pesquisa investigou?

Civilotti e colaboradores estudaram 20 mulheres adultas que apresentavam dificuldades relacionais e parentais.

As participantes foram avaliadas antes e depois da psicoterapia EMDR.

Um aspecto particularmente interessante desse estudo foi a utilização da Adult Attachment Interview (AAI), uma entrevista estruturada amplamente utilizada na pesquisa sobre apego adulto.

A AAI não investiga simplesmente se uma pessoa teve uma infância “boa” ou “ruim”. Ela observa, entre outros aspectos, como o adulto organiza e constrói a narrativa sobre suas experiências de apego.

Os pesquisadores também avaliaram a função reflexiva, relacionada à capacidade de compreender comportamentos — próprios e dos outros — considerando pensamentos, sentimentos, desejos, intenções e estados mentais.

Não é apenas o que aconteceu, mas como essa história está organizada internamente

Esse é um dos aspectos mais interessantes da pesquisa sobre apego.

Duas pessoas podem ter vivido experiências difíceis e apresentarem maneiras muito diferentes de falar, compreender e integrar aquilo que aconteceu.

Quando determinadas experiências permanecem não resolvidas, a narrativa pode apresentar contradições, rupturas ou dificuldades de integração emocional.

Isso ajuda a compreender por que o tratamento do trauma não envolve simplesmente “lembrar” ou “falar sobre” acontecimentos passados.

É necessário que determinadas experiências possam ser processadas e integradas de maneira mais adaptativa.

O que aconteceu após o tratamento com EMDR?

Após a psicoterapia, os pesquisadores encontraram mudanças significativas em algumas das medidas avaliadas.

Houve melhora na coerência das narrativas relacionadas ao apego e aumento da função reflexiva.

Também ocorreu uma redução significativa no número de participantes classificadas como apresentando um estado de apego não resolvido relacionado a experiências de perda e/ou trauma.

Esses resultados sugerem uma possibilidade clinicamente relevante: o reprocessamento de experiências traumáticas pode estar relacionado não somente à diminuição do sofrimento associado à memória, mas também à maneira como a pessoa consegue compreender e integrar sua própria história.

Compreender a si mesmo e compreender o outro

A função reflexiva tem uma importância especial nos relacionamentos.

Quando conseguimos reconhecer nossos próprios estados emocionais, podemos diferenciar melhor aquilo que estamos sentindo daquilo que efetivamente está acontecendo.

Da mesma forma, podemos compreender que o comportamento do outro possui motivações e estados internos que nem sempre correspondem aos nossos medos.

Imagine alguém cuja história tenha produzido uma expectativa intensa de abandono.

Um afastamento momentâneo do parceiro pode ser rapidamente interpretado como:

“Ele não me ama mais.”

“Vai me deixar.”

“Eu fiz alguma coisa errada.”

Quando experiências antigas são melhor processadas e existe maior capacidade reflexiva, torna-se possível construir outras interpretações:

“Estou sentindo medo de ser abandonado, mas esse medo pode estar relacionado também à minha história.”

Essa diferenciação entre o que pertence ao passado e o que realmente está acontecendo no presente pode ser extremamente importante para a construção de relações mais seguras.

O papel do EMDR

O EMDR não procura apagar experiências difíceis nem modificar artificialmente as lembranças.

O objetivo é favorecer o reprocessamento das memórias que continuam associadas a emoções, sensações corporais e crenças negativas.

Durante esse processo, antigas conclusões sobre si mesmo podem ser revistas.

Crenças como:

“Eu não sou digno de amor.”

“Não posso confiar em ninguém.”

“Eu sempre serei abandonado.”

podem perder a força emocional que adquiriram em experiências anteriores.

A memória permanece como parte da história da pessoa, mas pode deixar de comandar suas respostas no presente com a mesma intensidade.

O que o estudo não permite afirmar

Embora os resultados sejam interessantes, é importante reconhecer os limites da pesquisa.

O estudo foi exploratório, contou com apenas 20 participantes, todas mulheres, e não utilizou um grupo controle.

Por isso, não podemos concluir a partir desse trabalho isolado que o EMDR necessariamente modificará o padrão de apego de todas as pessoas.

Também não é possível atribuir todas as mudanças observadas exclusivamente ao reprocessamento das memórias.

O estudo deve ser compreendido como uma contribuição inicial para uma área de pesquisa que ainda necessita de investigações maiores e mais controladas.

Integrar o passado para viver o presente

Talvez uma das contribuições mais interessantes dessa pesquisa seja mostrar que trabalhar experiências traumáticas não significa permanecer preso ao passado.

Pode significar justamente o contrário.

Quando determinadas experiências são processadas e integradas, torna-se possível perceber com maior clareza o que pertence à história e o que pertence ao relacionamento atual.

O estudo de Civilotti e colaboradores sugere que o EMDR pode estar associado a mudanças na maneira como experiências de apego são organizadas e compreendidas, incluindo maior coerência narrativa e capacidade reflexiva.

As experiências que tivemos ajudam a construir nossa história, mas não precisam determinar indefinidamente a maneira como nos relacionamos no presente.

Fonte científica

Este texto de divulgação científica foi elaborado com base no artigo:

Civilotti, C., Cussino, M., Callerame, C., Fernandez, I., & Zaccagnino, M. (2019). Changing the Adult State of Mind With Respect to Attachment: An Exploratory Study of the Role of EMDR Psychotherapy. Journal of EMDR Practice and Research, 13(3), 176–186.

DOI: 10.1891/1933-3196.13.3.176

Artigo científico disponibilizado em acesso aberto (Open Access).

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